Poesias

Poesias de Angye Gaona, tradução de Jefferson Vasques:

TECIDO BRANDO

Calma e tino te digo, peito brando.
Não queiras conter toda a água dos mares.
Toma uns litros de ondas bravas,
de espuma fera.
Deixa que se encrespe dentro de ti,
cavalo afrontado,
mas não domes esta água
que o tempo a requer viva
e pulsante.
Respira e prepara-te, peito brando.
Não queiras conter todo o ar dos abismos,
toma só o de tua pequena inspiracão,
o acaricie por instantes,
o susurre como se ao último alento
e o deixa livre ir ali,
aonde tu também querias:
vasto, imenso, indistinto.
Sopra forte o que guardas.
Não recolhas mais lágrimas, peito brando.
E se um menino preso chora, dirás,
e se um homem é torturado, dirás.
Que não é tempo de guardar a ira, te digo.
É momento de forjar e fazer luzir
o fio da navalha.

CAMINHO

O caminho entrou pela janela como um ramo que a tormenta afugenta. Chovia.
Agudos nomes caíam gravemente,
lá de cima entoados,
chamados a rodar pelas calçadas.
As casas se tornaram caminhos ou foram atravessadas por eles. A lucidez se apoderou das casas.
Os habitantes buscaram os terraços,
ascenderam e alçaram suas faces com fervor
para o raio que revelou o caminho,
por um instante.

A FUGA

Perde a casa,
salte do leito,
enche os bolsos de fugas,
olha passar pela janelas
tua conta pendente de paisagens intocadas.

Encontra, de madrugada,
o grito interior do distante;
ou de tarde,
a bola de lodo às costas:
acumulação malsã de famílias enoveladas
que te deram em uso seus nomes,
agora gastos, errantes.

Marcha até o tédio, sangue meu.
Não queiras pisar o povo fértil que te chama a sua memória
só até perder-se mais,
perder-se melhor onde prefiras:
no oceano de graças deslumbrantes e profundas,
no deserto letárgico e equidistante de casa,
na montanha fecunda onde se multiplicam os caminhos.

Pisa aqui e ali até agonizar.
Volta a partir quando te tomem por louca
e tentem te enviar de barco a outro porto
ou te tratem como mercadoria que se perde nos bazares
de quem ninguém sabe de onde seu brilho ou avaria.

Entretanto, estará teu povo fértil
crescendo abundante como terra descansada,
esperando ver florescer
teu galho
e teu fazer.

FALA O VULCÃO

Milhares de perguntas ardem
debaixo da terra,
preparam a erupção.

Já fervem, já se sacodem;
de combate provocadas,
pronto falam as crateras,
estão por surgir.

Mãos são e nas montahas se alçam,
mãos de magma tomam as estâncias.
Não ficam em pé trono
nem possessão nem usura alguma.

Sonham as perguntas,
estalos nos tímpanos oficiais.
Se recordam os nomes fustigados,
os desmembrados insepultos,
ocultos debaixo do lodo impune.
Se avivam os nomes nas vozes;
podem desmoronar os muros das prisões,
podem se tomar os tronos,
se diluem as fronteiras,
se envocam esses nomes.
Nenhuma arma, nenhuma injúria, nada,
haverá de replicar esses nomes calcinantes.

IRMÃO MAIOR

Tradução: Daniel Oliveira

Às nações indígenas de América

A dançar vem o Sol à pele,
dourada por Deus.

A dançar,
tinem os dentes de ouro,
brincam os solos
nas unhas do touro.

Corre pelos caminhos,
pelas artérias.

Sangue vivo,
sangue do corpo passado.

Escorre meu sangue;
entra a circular pelo teu nome.

Sou uma mescla,
sou um pão,
sou mestiço.

Teus antepassados e teus filhos
lançam pedras contra mim.

Ao alcançar-me as pedras
se unem ao meu corpo,
se convertem em pães.

Toma este pão,
toma esta vida,
toma a Terra
que és tua.

Terra onde pariram todas nossas mães,
onde vivos bebemos leite da estrela.

A dançar, vem o Sol
com seus dentes de ouro.

Brinca na pele que levas
dourada pelos deuses.

Toma este sangue;
é o que sei sagrado
para um pacto.

Sangue antigo é.

Vem de dois rios,
duas correntes,
talvez três ou quatro afluentes.

É um rio silencioso,
espera sua hora para bramar.

A hora quando se juntam os rios,
a céu aberto abaixo o Sol,
em secreto ânimo de dançar
e ser um com os deuses,
em um pacto alto
que se chame Terra,
que se chame Mãe,
que nos chame irmãos.

 

“À memória dos assassinados sem devido processo”

profunda estrela,

alta
ruge na ampla dor
finita
da noite universal humanidade.

estrela em sangue negro flutuando no ardor.
oh esperança.
Como raízes no sudário,
estrela irmã
jorrando
beijando paciente
os cumes e as covas.
Alude a deslizamentos avalanches em todo o país;
enquantos as jóias sobrevivem incansáveis,
inalcançáveis.

estrela esta
conhecendo o alto:
coros transparentes debaixo das almofadas de musgo para sua acolhida.
água de estrela nas copas anfitriã
da fértil morte.

estrela de choque e geléia,
de pólen qualitativo abundante derramado na ampla dor
e a esperança peneirada sobre o manto.
estrela de guia passo invocação
de vitória contida;
no dorso do nada fulgurando
encandescendo encharcada.

 

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